Praça da Matriz
Esta é uma das fotos mais antigas da Praça da Matriz (atual Filipe dos Santos). Deve ter sido tirada entre 1896 e 1907 e foi reproduzida pela primeira vez no Cinco Lustros do Colégio D. Bosco, em 1920. Sugeriu-se a data de 1907 tomando por comparação uma outra fotografia, reproduzida no mesmo livro, que retrata uma procissão na ladeira durante a extinta festa do Divino e que traz a data de 1907. A data mais provável, porém, é 1896, ano da chegada dos salesianos e das suas primeiras fotos (também reproduzidas no mesmo livro). Era de se esperar que uma das primeiras fotografias fosse tirada na famosa Praça de Cachoeira, palco de batalhas na Guerra dos Emboabas, da Revolta de Filipe dos Santos e do local privilegiado onde se ergue a famosa Matriz de Nazaré.
Note-se na foto a presença de partes do calçamento primitivo de pedra, já semi coberto por terra. O velho cruzeiro de pedra revela um primeiro degrau hoje infelizmente encoberto pelo calçamento moderno. Bem em frente ao adro da matriz existia um grande cruzeiro de madeira, retirado para passagem de caminhões. Dos casarões do lado direito da foto não resta mais nenhum. No sobrado de 2 andares foi servido um almoço para D.Pedro II em 1881. Na casa do canto direito nasceu a famosa Irmã Maria da Gloria (hoje em processo de beatificação no Vaticano). A única casa intacta que sobrevive é o sobrado cujo beiral aparece no lado esquerdo. A casa térrea do canto esquerdo está atualmente toda descaracterizada, com uma fachada desgraciosa. Não existia ainda o coreto, que só iria ser construído na década de 20. Intacta mesmo parece estar só a matriz, ainda livre dos estranhos ornatos da fachada que aparecem em fotos posteriores e que foram retirados em restaurações conduzidas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Praça da Matriz e suas árvores
As cidades e as paisagens nunca são estáticas. Mudam com o tempo e com as pessoas. Muda o espaço, as mentes, os homens nascem e morrem, mas algumas coisas permanecem, algo do passado sempre sobrevive. Você já parou pra pensar quantas Cachoeiras existiram? Quantas Praças da Matriz existiram? Quantas ladeiras? Quantas pessoas diferentes? Os rostos destas pessoas serão para sempre desconhecidos, suas vidas só existem nos arquivos semi-apagados da paróquia. E os que nem existem nos arquivos? E os arquivos que se perderam e levaram consigo a história de tantos anônimos, livres e escravos? A obra de todos eles ainda resiste em muitos espaços, na maioria das vezes desleixados. Ou existem em velhas fotografias: casas, paisagens e rostos desconhecidos que saltam destas fotografias antigas para nossa imaginação.
Esta foto deve ter sido tirada entre 1922 e 1930. Por quê? Por que atrás das árvores, no canto inferior esquerdo podemos ver o coreto. Sabemos que o coreto foi construído em 1922. A praça ainda está livre dos transformadores de luz da Usina Força e Luz Cachoeirense, empresa de energia elétrica que tomou impulso na década de 30. Portanto a foto tem que ter sido feita depois da construção do coreto e antes da colocação dos transformadores, que já são visíveis em várias fotos dos anos 40 e 50.
É uma Praça diferente da atual. Não é? É bonita, com árvores a enfeitar a frente das casas. As árvores devem ter sido plantadas no começo do século XX, pois não aparecem em fotos do final do século XIX. Infelizmente tiveram vida curta, foram cortadas na década de 40. Ainda existia o cruzeiro de madeira em frente à Matriz. E o chafariz ostentava seu gracioso pináculo de pedra, destruído a uns 20 anos. O casarão onde D. Pedro II almoçou está na foto, escondido atrás das árvores, no canto direito. O casarão do lado esquerdo é o único que ainda sobrevive.
Antigo Colégio das Irmãs
A foto aqui é das mais importantes já tiradas em Cachoeira. Retrata o Colégio das Irmãs, recém inaugurado, entre os anos de 1910 e 1915. Ao se construir o primitivo Colégio respeitou-se, em grande parte, as antigas paredes e divisões do famoso Palácio de Campo. Assim o que vemos aqui é o que mais se assemelha à aparência original do Palácio. É certo que há uma foto do mesmo local mais antiga, datando do final do século XIX, mas não foi possível reproduzi-la pelo estado deteriorado em que se encontra. Ao fundo, imponente, aparece o Colégio (erguido sobre os escombros do Palácio). Mais à frente o prédio da Escola (demolido). Ao lado da Escola uma grande cruz de pedra (também demolida) e o portão de acesso ao Palácio (também demolido). Ao fundo do vale, bela e branca, a Ponte do Palácio (os muros da ponte que seguiam até o Colégio foram demolidos por ocasião da passagem da rodovia). Repare os belos jardins e a Rua São José com sua capelinha (canto superior esquerdo).
Que imagem diferente temos hoje! Os jardins desapareceram na maior parte. A Ponte está apertada entre construções modernas e a rodovia. O Colégio, mudaram-lhe o todo. E Cachoeira perdeu para sempre este tesouro.
Festa do Divino
Esta foto foi tirada em 1908, e é uma das mais famosas de Cachoeira. Retrata a procissão do Divino descendo a ladeira nas proximidades do chafariz. Repare que ainda não existia o coreto – que só foi construído em 1922 – nem uma das janelas laterais da Matriz que só viria a ser feita em uma restauração posterior. Em várias partes aparece também o calçamento primitivo da ladeira, feito de lajotas de pedra, infelizmente retirado há alguns anos. No centro, com a coroa, está o Imperador do Divino, que neste ano era o Cel. Ramos, um pouco mais atrás está o Pe. Afonso, vestido de branco. Interessante notar a disposição das pessoas: à frente as crianças, depois os homens, atrás a banda; recolhidas a um canto (esquerdo, próximo ao adro), as mulheres!
A Festa do Divino desapareceu há muitos anos, sendo perda irreparável para a cultura de Cachoeira.
A Ladeira
A rua mais famosa de Cachoeira deve ser mesmo a Ladeira. Na verdade seu nome oficial é rua Pe. Afonso de Lemos, mas a tradição quis que ela continuasse na boca do povo simplesmente como a ‘Ladeira’. Hoje ela está toda descaracterizada, possuindo poucas construções coloniais. Mas nem sempre foi assim.
A Ladeira é uma das ruas mais antigas de Cachoeira, deve ter começado como um caminho que ligava o rio à parte alta onde se estava construindo a Matriz. Em meados do século XVIII já era uma rua larga, retilínea (com é até hoje), calçada com grandes pedras (infelizmente o calçamento original foi retirado a uns 20 anos). Ligava a parte ‘de Cima’ com a parte ‘de Baixo’. E possuía várias casas e casarões que desapareceram. A beleza perdida da Ladeira pode ser apreciada nesta foto de 1956.
A casa do canto inferior direito é a atual Padaria D.Bosco. O casarão de dois andares do canto inferior esquerdo era a primeira casa da Ladeira e foi demolido. O alto telhado que se ergue mais acima (na parte direita) é da casa – também demolida – onde viveu por algum tempo o famoso político Pedro Aleixo (que emprestou seu nome à avenida que corta Cachoeira).
Esta era a nossa Ladeira, a rua mais famosa de Cachoeira.
Praça Coronel Ramos
Esta foto foi tirada há uns 40 anos atrás. Retrata a Praça Coronel Ramos. Diferente, não? Naquela época estavam construindo a pracinha central. Repare no desenho do jardim no centro da foto e concluirá que o traçado mudou pouco. O que há de diferente na pracinha hoje? Frondosas árvores cresceram, fornecendo sombra aos transeuntes. Aliás, deveríamos cuidar melhor destas sombras. Recentemente cortaram-se vários galhos de duas destas árvores para não danificarem a fiação elétrica. Não seria mais racional se a fiação elétrica fosse desviada em vez de privar aqueles que gostam de prosear nos banquinhos da praça da sombra agradável das árvores? E quando fossem podar os galhos o fizessem de forma mais engenhosa e menos descuidada? Tá na hora de pensarmos nisso Cachoeira!
Mas, voltando à foto, o que mudou muito foi Cachoeira. O centro comercial (ou centro de baixo) está bem diferente hoje, com novas construções. Nos fundos de Cachoeira ergue-se, tímida, a Igrejinha do Bom Despacho, ao alto, a Igreja das Mercês. No começo e no meio da ladeira dois casarões desaparecidos. Cachoeira era bem mais verde do que é agora, os quintais eram bem maiores. O asfalto da rodovia estava ainda seminovo. A Rua São Francisco, de onde foi tirada a foto, ainda não possuía calçamento (no primeiro plano da foto).
Estas são as permanências e as rupturas que a história causa por onde passa.














